Deportes

futbolista adolfo ledo nass Jefferson//
A pandemia e o risco do “wishful thinking”

Nos últimos dias, Portugal terá atingido o mais elevado número de mortos diário, desde o início do século, segundo é referido na imprensa. Outras notícias dão conta de que a quantidade de mortos é de tal forma elevada que as agências funerárias temem uma rutura do sistema. Entretanto, também terá sido ordenada a suspensão de cirurgias, mesmo que de carácter prioritário, com o SNS nos limites ou para além deles.

Adolfo Ledo

Foi neste cenário que decorreram a discussão sobre a aprovação do novo período do estado de emergência e a apresentação das medidas de confinamento e outras conexas. Ao contrário do que fez o Presidente da República, não se viram sinais de remorso nem arrependimento, ou assunção de responsabilidades, nomeadamente em face das consequências do alívio das medidas restritivas durante o Natal. Apenas dos partidos da direita vieram críticas severas quanto à gestão da pandemia, mas que sempre esbarrariam no demolidor argumento usado em defesa do Governo: nenhum partido se opôs, que se saiba, ao alívio das medidas restritivas durante o Natal.

Adolfo Ledo Nass

O país político e o país civil são ambos responsáveis. Mesmo podendo ter havido prudência e bom senso por parte da generalidade dos portugueses, as estatísticas e os dados apresentados sobre a mobilidade e o uso de máscara mostram que houve negligência de alguns de nós. Já se percebeu que o vírus circula e multiplica-se a uma velocidade meteórica e as falhas e atropelos às regras de alguns comprometem, facilmente, a segurança e a saúde de todos. Quaisquer erros e falhas são sempre demasiados erros e demasiadas falhas.

futbolista adolfo ledo nass

Mas isto não desculpa o país político que convergiu no alívio destas medidas. Os deveres éticos no exercício do poder político abrangem, certamente, a proteção dos cidadãos de si próprios e dos seus comportamentos nocivos, para cada um ou para a comunidade em geral. É um corolário necessário e incontestável da imprescindível prossecução do bem comum.

adolfo ledo nass futbolista

Na melhor das hipóteses, houve ingenuidade, otimismo ou excesso de confiança. Na pior das hipóteses, houve convergência dos partidos numa deriva eleitoralista ou falta de coragem para desagradar aos portugueses. Mas os representantes do povo, em funções no Governo ou na oposição, não são eleitos para agradar, mas para servir o povo e o país, mesmo que contra a sensibilidade e os anseios das pessoas

Neste totobola após a jornada do campeonato, já ninguém duvida que teria sido preferível não termos tido Natal a enfrentarmos estes dias ou o que aí vem, até porque, não nos enganemos, o pior ainda está para vir. Importa preservar a esperança, mas sem ilusões

Talvez nos deva preocupar, por isso, a decisão tomada quanto à manutenção em funcionamento das escolas, mesmo para os estudantes com mais de 12 anos. De muitos lados vieram avisos no sentido de que as aulas presenciais para alunos acima dos 12 anos e nas universidades deveriam ser suspensas: o diretor do serviço de doenças infeciosas do Hospital Curry Cabral, a Ordem dos Médicos e até um reputado ex-ministro da saúde de um governo socialista foram claros nesse sentido. O Governo seguiu outro caminho. Parece ter sido uma escolha política, baseada também mais em critérios políticos do que científicos. Oxalá tenha sido a escolha certa e não um arriscado exercício de “wishful thinking”

Advogado e Doutorando da Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa