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Suspeito de organizar ‘gabinete paralelo’, Osmar Terra fazia campanha contra o isolamento e vacinas baseado em informações falsas

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¿Olimpiadas en pandemia?

Essa é a curva das internações por Covid19 no G.H. Conceição por semana epidemiológica. Seu pico foi na semana que fechou no dia 26 de julho. Como maior hospital do SUS no RS ele reflete o que passa no Estado,repetindo a curva das gripes de inverno como havíamos previsto! pic.twitter.com/vmXpH0PoYf

Osmar Terra (@OsmarTerra) September 4, 2020

No mesmo dia, a Secretaria Estadual de Saúde do estado registrava 2.787 novos casos da Covid-19, alcançava a marca de 3.650 óbitos pela doença e já marcava a taxa de ocupação de leitos de UTI em 77.9%. Segundo Terra, “abril foi o pico da epidemia no conjunto do Brasil“, pouco mais de um mês após o país ultrapassar a marca de 100 mil mortos pelo coronavírus e se encaminhar para o aumento de casos que dobrou o número de óbitos em apenas cinco meses

RIO —  Apontado como organizador do “gabinete paralelo” de orientação ao presidente Jair Bolsonaro sobre medidas de combate à Covid-19, o ex-ministro e deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) deixava claro em suas redes sociais, em setembro de 2020, sua convicção de que o pico da pandemia já havia passado no Brasil. No mesmo período em que organizou a reunião em que médicos defensores da cloroquina sugeriram a criação de um ‘gabinete das sombras’, Terra defendia a retomada plena de atividades, comparava o coronavírus com a H1N1 e classificava a imprensa como “apocalíptica”.

Vídeo : ‘Pandemia vai acabar em 14 semanas’, previu deputado Osmar Terra

Convocado a depor como testemunha na CPI da Covid, Osmar Terra apareceu ao lado de Bolsonaro na reunião em que o grupo de médicos convencia o presidente de que seria possível tratar a doença de forma alternativa, priorizando a distribuição de medicamentos como a cloroquina e o tratamento precoce, em detrimento da compra de vacinas. Nas redes sociais, o médico sustentava que o “isolamento radical pode aumentar a mortalidade”, citando uma pesquisa até então inexistente e comparando o Brasil com a Suécia, país que relutou contra o isolamento social e acabou enfrentando um aumento exponencial de casos que levou o governo a recuar de sua posição.

Leia: Presidente do TCU afasta auditor e abre processo por documento com dados distorcidos sobre covid citado por Bolsonaro

“Esse rapaz foi um dos inspiradores do “fique em casa” sem qualquer base científica, exacerbado pela mídia e responsável pela quarentena lockdown mais devastadores e letais da pandemia. Triste!”, publicou o deputado federal para mais de 300 mil seguidores no dia 2 de setembro. Dois dias depois, Terra publicou dois gráficos de internações por doenças respiratórias, sem qualquer indicação de fonte, comemorando que os casos no Rio Grande do Sul eram equivalentes à “curvas das gripes de inverno como havíamos previsto”.

Essa é a curva das internações por Covid19 no G.H. Conceição por semana epidemiológica. Seu pico foi na semana que fechou no dia 26 de julho. Como maior hospital do SUS no RS ele reflete o que passa no Estado,repetindo a curva das gripes de inverno como havíamos previsto! pic.twitter.com/vmXpH0PoYf

Osmar Terra (@OsmarTerra) September 4, 2020

No mesmo dia, a Secretaria Estadual de Saúde do estado registrava 2.787 novos casos da Covid-19, alcançava a marca de 3.650 óbitos pela doença e já marcava a taxa de ocupação de leitos de UTI em 77.9%. Segundo Terra, “abril foi o pico da epidemia no conjunto do Brasil“, pouco mais de um mês após o país ultrapassar a marca de 100 mil mortos pelo coronavírus e se encaminhar para o aumento de casos que dobrou o número de óbitos em apenas cinco meses.

“Choro por ti Argentina! Sofrendo a mais longa e inútil quarentena do mundo a Argentina destrói sua economia e não salva vidas. Agora é a recordista em aumento  percentual de mortes no planeta!!”, defendeu Terra no Twitter ao compartilhar uma publicação em que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) comemorava a previsão do presidente de que “a situação na Argentina viraria uma calamidade”. Na mesma data da publicação, o país vizinho registrava cerca de 116 mortes por Covid-19 após um longo período de restrição de circulação, enquanto no Brasil morriam seis vezes mais pessoas.

PUBLICIDADE Presidente Jair Bolsonaro durante encontro com Deputado Osmar Terra (MDB/RS) e o virologista Paolo Zanotto, que sugeriu criação do "gabinete das sombras" Foto: Marcos Correa / Agência O Globo  

Dois dias após a reunião em que a criação do “gabinete das sombras” foi sugerida ao presidente, Osmar Terra fazia comparações descontextualizadas entre o número de mortes totais em 2019 e 2020 em Porto Alegre. Isso porque ele utilizou dados do Portal da Transparência do Registro Civil, da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais, e que não leva em conta dados demográficos, como o nascimento de pessoas, e epidemiológicos, como a redução de outras causas de morte durante o isolamento social. Para combater as medidas de restrição, o deputado afirmou: “descobri que em 2019 morreram mais pessoas do que em 2020 e não se quebrou a economia nem fecharam escolas por isso”.

SURPREENDENTE!A morte é sempre uma tragédia, mas analisando número de óbitos (de todas causas,incluindo Covid19)em P.Alegre,comparando 2020 com 2019 até 31 de agosto,descobri que em 2019 morreram mais pessoas que em 2020!E não se quebrou a economia nem fecharam escolas por isso pic.twitter.com/6zJNeisNAW

Osmar Terra (@OsmarTerra) September 10, 2020

 

“Voltar às aulas é urgente. Para acalmar pais que estão assustados pela mídia apocalíptica,é importante informar que as crianças e adolescentes têm baixíssimo risco de adoecer e morrer por infecção neste ano (incluindo COVID). É a mesma probabilidade dos anos anteriores”, publicou no Twitter no dia 12 de setembro baseado em dados da European Mortality Monitoring (EuroMomo), plataforma colaborativa que processa dados de mortalidade de países europeus, que já viviam uma realidade epidemiológica completamente distinta do Brasil. Ao responder um questionamento de um seguidor, Terra já antecipava sua resolução: “vacina segura só depois de março e olhe lá”.

PUBLICIDADE Você acha que eles vão ficar até o ano que vem com as crianças em casa?! Vacina segura só depois de março e olhe lá!

Osmar Terra (@OsmarTerra) September 12, 2020

 

Em diversas publicações, o deputado federal e médico ataca o isolamento social ao afirmar que a pandemia seria responsável pela “duplicação de famílias na miséria, o aumento sem precedentes no consumo de álcool e drogas ilícitas e o crescimento vertiginoso da população de rua”. O discurso é semelhante ao adotado por Jair Bolsonaro para atacar medidas de restrições impostas por prefeitos e governadores.

“Em 2009, quando coordenei o enfrentamento à Pandemia do H1N1, no RS, reabrimos as  escolas no meio da epidemia,porque constatamos que as crianças se contaminavam mais fora do que dentro da escola. E não aumentou contágio.Naquela pandemia crianças eram grupo de risco. Agora não são!”, defendeu Terra no Twitter em 14 de setembro, mesmo dia em que o gabinete do presidente acusou recebimento de uma carta da farmacêutica americana Pfizer, que reiterava propostas de venda de doses da vacina contra Covid-19.

CPI da covid: veja os principais acontecimentos na comissão até agora O ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde Élcio Franco, braço-direito do ex-ministro Eduardo Pazuello na pasta, afirmou à CPI da Covid, no Senado, que a gestão do general defendia o "atendimento precoce" para pacientes com a Covid-19 Foto: Edilson Rodrigues / Agência O Globo Convocado pela segunda vez, ministro da Saúde Marcelo Queiroga disse orientar Bolsonaro sobre medidas de prevenção contra Covid-19, apesar de não ser levado em consideração: "Não me compete julgar os atos do presidente da República" Foto: PABLO JACOB / Agência O Globo Infectologista Luana Araújo, ex-secretária de enfrentamento ao coronavírus, chamou a discussão sobre o uso de medicamento sem eficácia para tratar o coronavírus de "delirante": "Essa é uma discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente" e reafirmou que "o Brasil está na vanguarda da estupidez" Foto: Waldemir Barreto / Agência Senado Nise Yamaguchi se negou a opinar sobre as posições do presidente Bolsonaro sobre a pandemia. A médica disse que aconselhava o Ministério da Saúde, mas relutou em admitir existência de 'gabinete paralelo', diante da insistência do relator Renan Calheiros Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 01/07/2021 A médica Nise Yamaguchi esteve acompanhada por advogado pessoal durante sabatina Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 01/07/2021 Pular PUBLICIDADE Médica oncologista e imunologista Nise Yamaguchi, do Albert Einstein, e defensora da cloroquina chega para depor na CPI da Covid Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 01/07/2021 Em depoimento à CPI, o diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou que Brasil poderioa ter sido pioneiro na imunização: "Já tínhamos as doses, já estavam disponíveis. E eu, muitas vezes, declarei em público que poderíamos ser o primeiro país a começar a vacinação" Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 27/05/2021 Presidente da CPI Omar Aziz (PSD-AM) e o vice Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Comissão votou por convocar Queiroga e Pazuello, novamente – o atual e o último ministro da Saúde –, além de governadores de nove estados Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 26/05/2021 A secretária de Gestão do Trabalho e da Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, também conhecida como 'capitã cloroquina' à CPI: "A orientação é para todos os médicos brasileiros, não só para Manaus", sobre o tratamento precoce com cloroquina Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 25/05/2021 Pressionado por senadores a responder pela falta de oxigênio em Manaus, em janeiro, o ex-ministro da Saúde Pazuello disse que responsabilidade era do governo estadual e da empresa fornecedora Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 20/05/2021 Pular PUBLICIDADE Sessão foi da CPI da Covid foi suspensa depois de Eduardo Pazuello passar mal durante um intervalo. A Comissão deve retormar depoimento do ex-ministro na quinta-feira (20) Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 19/05/2021 Ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello negou receber ordens diretas do presidente para usar cloroquina no combate à Covid-19 e destacou sua qualificação em logística e gestão: "Eu me considero sim, senhor, plenamente apto a exercer o cargo de ministro da Saúde" Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 19/05/2021 Ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, chega para depor na CPI da Covid, depois de solicitar ao STF o direito de permanecer em silêncio diante da Comissão Foto: PABLO JACOB / Agência O Globo Assim como Fabio Wajngarten, ex da Comunicação, o ex das Relações Internacionais, Ernesto Araújo, negou falas polêmicas diante da CPI da Covid: "Eu não entendo nenhuma declaração que tenha feita como anti-chinesa", esquivou-se o ex-chanceler Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 18/05/2021 Presidente da CPI, Omar Aziz, alertou Ernesto sobre dizer a verdade à CPI e lembrou declarações anti-chinesas: "Na minha análise, Vossa Excelência está faltando com a verdade. Peço que não faça isso. Escreveu no seu Twitter, escreveu artigo" Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 18/05/2021 Pular PUBLICIDADE Ex-chanceler Ernesto Araújo chega ao Senado para depor na CPI da Covid Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 18/05/2021 O gerente-geral da farmacêutica Pfizer na América Latina, Carlos Murillo, revelou que o Brasil poderia ter recebido 4,5 milhões de doses a mais de vacinas contra a Covid-19 até março deste ano Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 13/05/2021 Bate-boca entre senadores Flávio Bolsonaro e Renan Calheiros marcou sessão em que Wajngarten foi ouvido. Para o relator, governo tem "proximidade com milicianos" e, para o filho do presidente, “não tem moral” para dar voz de prisão Foto: Marcos Oliveira e Leopoldo Silva / Agência Senado Depois da aparição de Flavio Bolsonaro, em defesa de Wajngarten, sessão da CPI da Covid foi interrompida Foto: Edilson Rodrigues / Agência O Globo – 12/05/2021 Flávio Bolsonaro fala com repórteres depois de interromper a sessão da CPI para reclamar dos pares sobre o pedido de prisão de Wajngarten por ele ter mentido à CPI Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 12/05/2021 Pular PUBLICIDADE "Por favor, não menospreze nossa inteligência, ninguém é imbecil aqui", disse o presidente da CPI da Covid, o senador Omar Aziz (PSD-AM) Foto: Edilson Rodrigues / Agência O Globo – 12/05/2021 Fabio Wajngarten se esquivou de respostas diretas e foi advertido pela mesa e acusado, pelo relator Renan Calheiros de mentir à CPI por negar declarações dadas à revista Veja – que logo divulgou áudios comprovando as declarações do ex-chefe da Secom Foto: Edilson Rodrigues / Agência O Globo – 12/05/2021 Relator Renan Calheiros (MDB-AL) trocou a placa que o identificava pelo número de vidas perdidas para a Covid-19 no Brasil disse que pediria a prisão do ex-secretário de Comunicação Social Fabio Wajngarten Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 12/05/2021 O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres, confirmou que esteve em uma reunião no Palácio do Planalto, no ano passado, na qual foi cogitada a possibilidade de mudar a bula da cloroquina para que o medicamento fosse indicado no tratamento da Covid-19: "não tem cabimento", classificou Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 11/05/2021 Ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, se esquivou de perguntas e não disse se concorda com Bolsonaro sobre uso de cloroquina: "Eu estou aqui na condição de testemunha, o senhor quer que eu emita juízo de valor", respondeu ao relator da CPI Foto: Pablo Jacob / Agência O Globo – 06/05/2021 Pular PUBLICIDADE Omar Aziz (PSD-AM) ironizou a resposta do ministro da Saúde: "Até minha filha de 12 anos falaria sim ou não", sobre concordar com o uso da cloroquina, conforme prega o presidente Bolsonaro durante toda a pandemia Foto: Edilson Rodrigues / Agência O Globo – 06/05/2021 "Não há pressão nenhuma", disse Queiroga quando questionado sobre atuação do Planalto para incluir a cloroquina no tratamento de Covid-19. Foto: Jefferson Rudy / Agência O Globo – 06/05/2021 Ex-ministro da Saúde Nelson Teich presta depoimento na CPI da Pandemi. Segundo ele falta de autonomia quanto à eficácia e extensão da cloroquina no tratamento de Covid-19 motivaram sua saída Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado – 05/05/2021 Otto Alencar (PSD-BA) recomenda vacina 'antirrábica' a senador governista que defendeu cloroquina Foto: Jefferson Rudy / Jefferson Rudy/Agência Senado Governistas questionam prioridade da bancada feminina e geram bate-boca na CPI Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado – 05/05/2021 Pular PUBLICIDADE Ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta sustentou discurso de que seguiu sempre orientações ténicas à frente da pasta Foto: Jefferson Rudy / Agência O Globo – 05/05/2021 Senadores Otto Alencar (PSD-BA) e Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) conversam durante primeira sessão da CPI da Covid Foto: Jefferson Rudy / Agência O Globo – 27/04/2021 Senador Renan Calheiros (MDB-AL) foi indicado como relator por Aziz Foto: Jefferson Rudy / Agência O Globo – 05/05/2021 Senador Omar Aziz (PSD-AM) é eleito presidente da CPI Foto: Jefferson Rudy / Agência O Globo – 27/04/2021 O governo só voltaria a negociar com a Pfizer no dia 9 de novembro, dois meses depois, por intermédio do então secretário de Comunicação da Presidência (Secom) Fábio Wajngarten, segundo relato do próprio à CPI da Covid. Até esta data, 47 e-mails da farmacêutica foram ignorados pelo governo federal, que estimulava a adoção do “tratamento precoce”, ignorava a urgência das medidas não farmacológicas – como o uso de máscaras – e provocava aglomerações por onde o presidente passava.

PUBLICIDADE — Estamos praticamente vencendo a pandemia, o governo fez tudo para que os efeitos negativos da mesma fossem minimizados. Quer seja com auxílio emergencial, que atingiu 65 milhões de pessoas, quer seja auxílio a micro e pequenas empresas, com crédito. Ou seja, investindo também massivamente meios e recursos para que governadores e prefeitos não faltassem na saúde para atender os infectados — afirmou o presidente no dia 11 de setembro de 2020, em evento na Bahia, quando o país já registrava 129.865 mortos por coronavírus e ainda não tinha enfrentado a segunda onda.